Tema Anual

2009
ESCALADA: MERGULHO NO EU, ENCONTRO COM O OUTRO, COM O MUNDO E COM DEUS

Ser alpinista é ser depositário de um tesouro. Um tesouro em vasos de barro. O tesouro é o dom do carisma que Deus entregou a Gília: Ser pessoa em clima de oração. O vaso de barro somos nós, com nossos limites e possibilidades. É isso que somos: vasos de barro carregando um tesouro que Deus nos deu. Assim, ser alpinista é carregar a responsabilidade de viver como pessoa, remando contra a maré da mesmice que coloca a todos na vala comum dos códigos e números, das estatísticas e dos valores embasados no ter. Ser alpinista, sendo prazer e privilégio, é responsabilidade e compromisso. Não é fácil estar em relação. Vejamos bem, em relação. Não falo aqui de estar junto, num grupo, numa turma, numa rede indefinida. Falo de relação. Ser pessoa é estar em relação. Muito mais que estar junto, do lado. Nisso consiste a exigência do ser pessoa. Mas aí está a riqueza deste nosso dom. Riqueza e exigência. Queremos aprofundar, ainda mais, este dom em 2009. Relação com Deus, comigo mesmo, com o outro e com o mundo. Deve existir em nós, alpinistas, uma tensão permanente neste sentido. Nosso jeito de viver a fé, de ser Igreja, de viver o cristianismo é este. Relação com Deus. Daí o "em clima de oração". Estar em clima, embora não exclua, ultrapassa as formas de rezar, as metodologias de oração. Clima, como bem lembrou o vídeo feito para os 30 anos, é ambiência, é estado. Poderíamos traduzir, portanto, em estado de oração. A atmosfera do alpinista é a oração. Devemos estar imersos na oração todos os dias da nossa vida. Oração enquanto estar em Deus. Daí que ser pessoa é ser relação permanente com Deus, ambiência de oração, atmosfera de transcendência. É fácil? Não.Mas este é o caminho de felicidade para quem pretende ser fiel e ir fundo como alpinista. Relação comigo mesmo. Não existe vida de fé que se sustente sobre uma identidade fragilizada. Uma pessoa incapaz de olhar honestamente para si mesmo é um campo fértil para equívocos vários na vivência da fé. Só uma humanidade minimamente curada é capaz de viver uma fé madura. Por isso, ser pessoa é ser relação saudável e honesta consigo mesmo. Uma segunda tensão que deve nortear a vida do alpinista. Em Deus, olhar sempre para si mesmo, dialogar com os próprios fantasmas, valorizar as qualidades, louvar a Deus pelos dons e pedir perdão pelos pecados. Relação com o outro. De que serviriam as relações com Deus e comigo se nãodesembocassem na relação com o outro? O outro é meta da nossa vida cristã. Lembro bem de quando li num livro (Apresento-lhes a Baronesa) que sobre a mesa daquela mulher cega que cuidava de toda uma obra social estava uma placa escrita "eu sou o terceiro". Pedida uma explicação ela não temeu em responder: primeiro Deus, segundo meu irmão. "Eu sou o terceiro." Esta deve ser a meta de todo alpinista. Fazer do outro a razão da sua vida. Sustentado na relação com Deus, consigo, sem vacilar, lançar-se em direção ao outro com todos os riscos decorrentes deste ato de fé. Relação com o mundo. A política, a economia, a ecologia, a cultura, as artes, a sexualidade e tudo mais que faz parte deste grande cosmos em que estamos imersos diz respeito ao alpinista. Não somos fermentos para viver no armário. É no meio da massa da história que a nossa adesão a Cristo encontra o seu sentido último. Deixar-se influenciar pela fé nas decisões tomadas e influenciar o mundo para que tome decisões acertadas é o nosso papel. Lutas imensas são travadas no meio do mundo. Entre a vida e a morte, entre a esperança e a desilusão, entre a paz e a violência, devemos ter clareza deque lado estamos e não podemos fugir da luta. Omissão, não nos esqueçamos, também é pecado. Estas querem ser as palavras iniciais para animar este primeiro ano do resto de nossas vidas de alpinistas. Indo mais fundo em nosso carisma, nós iremos mais longe em nossa vivência de fé. Que Deus nos abençoe.

Padre Mané Filho (13ª Escalada de Salvador - Sementes do Amanhã)