@movescalada

Quaresma Solidária

5 de março de 2010

Estamos entrando, mais uma vez no tempo da Quaresma. Momento forte que nos prepara para a Páscoa, lembrando os quarenta anos que o Povo de Deus passou atravessando o deserto para chegar à Terra Prometida e os quarenta dias que Jesus passou no deserto antes de iniciar a sua vida pública. Por isso quarenta dias entre a Quarta-Feira de Cinzas e o Domingo de Ramos.

A Quaresma quer despertar em nós três atitudes que, na verdade, devem embalar toda a vida do cristão: Oração, Jejum e Conversão.

Oração, pois só neste clima, nesta ambiência é possível viver a experiência cristã em sua plenitude. O cristianismo não parte de uma idéia, de uma vontade ou de uma teoria. Parte de uma experiência, um estar com Aquele com completa e suplanta. Que dá sentido, encoraja, renova. Um verdadeiro cristianismo, portanto, nasce desse contato constante com Cristo, que é a oração. O tempo da Quaresma deve suscitar em nós um renovador ardor no diálogo com o Cristo que, para nós alpinistas, se revela de forma primordial através da Leitura Orante da Bíblia.

O jejum é uma forma muito antiga e sempre nova de educação dos sentidos. A pessoa humana é uma totalidade que reúne o espiritual, o psicológico e o corporal. Corpo, alma e espírito formam, portanto uma única realidade que deve ser totalmente educada para o bem. Uma forma de educar a alma e o espírito através do corpo é a prática do jejum. É bom lembrar que ela não é exclusividade do cristianismo, sendo amplamente usada em religiões ancestrais como o Hinduísmo, o Budismo e mesmo as religiões de matriz africana como o nosso Candomblé. Deixando de lado algo que gostamos e doando este bem a quem precisa, educamos a alma, tornando a nossa psique madura para fazer renúncias e, conseqüentemente, escolhas maduras e educamos o espírito para saibamos nos apegar ao que verdadeiramente conta.

A conversão é mudança de rumo, tempo novo para fazer o novo acontecer em nossa vida. Sair do pecado para entrar na Graça, Projeto de Deus para todos nós. Da mesma forma que existe o pecado pessoal e o pecado social, existe a conversão pessoal e social, todas em conexão profunda. Assim, todo pecado pessoal tem ressonâncias na sociedade e toda conversão pessoal tem reflexos na sociedade.

Partindo da idéia de pecado e conversão social, a Igreja no Brasil criou, há mais de 40 anos a Campanha da Fraternidade, sempre evocando um tema de interesse social, na perspectiva profética do anúncio do Projeto de Deus e da denúncia sobre o afastamento desse mesmo Projeto.

Em 2010 temos uma proposta desafiadora de tema: “Economia e vida”. O lema, “Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro”.

A proposta é desafiadora, pois trata de um tema, por um lado, muito próximo a realidade de todos e, por outro, muito distante das nossas conversar “religiosas”. Parece impuro tocar a realidade de forma tão contundente, através da economia. Será um desafio trazer para nossas conversas e práticas um tema como esse. O Texto Base, quando fala do agir já aponta um horizonte que pode ser luz para não cairmos num denuncismo estéril: a economia solidária.

Precisamos despertar mentes e corações, especialmente através do nosso Projeto Casa Magníficat, para uma nova mentalidade que gere condições de vida digna para os menos favorecidos através de um protagonismo proativo, em perspectiva de uma prática solidária que agregue pessoas em torno de um projeto comum.

Falarei mais sobre isso em um próximo texto.

Padre Mané