Parar para retomar a caminhada
Quando estamos envolvidos com os objetivos que traçamos para nossa vida ou mesmo quando estamos no embalo de nosso dia a dia, na aceleração de nossos compromissos, é muito difícil parar.
Paramos compulsoriamente no sinal de trânsito mas, instintivamente, quando o verde desponta sob nosso olhar, apertamos buzinas, alertando para o mundo, que cada segundo é precioso.
Paramos, compulsoriamente, quando nosso corpo grita e faz eclodir alguma doença que nos rouba a condição física para continuarmos a correr.
Paramos quando, compulsoriamente, nos vemos diante de filas, de engarrafamentos que têm o objetivo único de nos ensinar a arte da espera.
Mas não gostamos de parar… Parar tem, para nós, o sabor da perda, da perda de nosso bem mais precioso : o tempo !!!! No impulso de estarmos sempre em atividade, no “fazedorismo” contagioso que atinge desde os pré-escolares até os já escolados da vida, é angustiante precisar parar. São as exigências da sociedade, são as obrigações do mundo, são as cobranças do capitalismo, do racionalismo ou, tantas vezes, de nossa necessidade de ter, de fazer sempre mais….. Parar é quase deixar de viver, é quase morrer…..
Vem a Quaresma e, com ela, o convite para uma parada especial…. Desacelerar o ritmo alucinante da corrida pelas coisas do aqui e do agora para envolver-se com a eternidade das coisas do Pai…. E somente na serenidade, somente na oração, somente no silêncio ou no diálogo verdadeiro, somos capazes de sentir a paz de quem se encontra com Ele…
Vem a Quaresma e, com ela, a consciência de que existe um outro lado a cultivar, a conhecer, a explorar…. A lembrança de que a semente precisa de seu tempo guardada na terra para, então, germinar…. assim como a lagarta, somente depois do casulo, se transforma em borboleta e passa a poder voar…..
Por que é, para nós, primatas superiores, tão difícil, compreender as mensagens que a natureza nos dá ? Por que é, para nós, homens do terceiro milênio, tão difícil responder ao convite do Pai que continua esperando que tomemos consciência de nosso verdadeiro papel na história ? Por que não conseguimos parar, sair da postura de donos do mundo, escritores absolutos da história, construtores, criadores…. e nos permitimos o tempo de criaturas, de leitores das mensagens escondidas em cada canto, de filhos queridos desse Deus que é puro Amor ?
Vem a Quaresma e, com ela, o desafio de um aprendizado que não se esgota: saber perder para poder ganhar; entregar-se criatura para, então, criar; permitir-se preencher para poder transbordar; conseguir ouvir para saber o que falar; entregar-se e adormecer para, mais forte, despertar; conhecer onde se vai chegar para, então, sim, se preciso for, dispor-se a correr; saber a causa da guerra para querer lutar; compreender o chamado da Quaresma para vivenciar, na plenitude, a experiência de ressuscitar….
Parar…. Poder parar…. Saber parar… única possibilidade de retomar a caminhada com força, com coragem e, paralelamente, com a tranqüilidade e a fé de quem sabe: aonde vai chegar… por quê quer chegar… e para quê tanto caminhar……
Renata Villela - Grupo OPA
Março - 2001.
